Poesia!

Bené Fonteles

 

Desci na manhã fria de junho a rua de pedra da antiga Cidade de Goiás. Dois alumbramentos: as primeiras luzes do sol pintavam a fronte larga da Serra Dourada e, mais adiante, embaixo da ponte de madeira, tremulavam, ao vento, alguns lençóis tingidos de anil.

 

Foram colocados, ainda na madrugada, por Selma Parreira, pendurados nos dois frontispícios da velha ponte. Eram como poemas ao vento expostos às refrações várias da luz do sol sobre as águas do Rio Vermelho.

 

Era pura poesia... até que as pessoas se apoderaram deles como donas de alguns versos e os levaram para casa para cobrir corpos, sonos e sonhos...

Havia ido, nessa levada da manhã, comprar os gostosos biscoitos de queijo de dona Inês no Mercado Municipal, mas levei, também, aqueles lençóis na cabeça na volta pra casa de dona Ciça, onde estava hospedado com a artista e onde ela me esperava para saber como havia sido em mim a sua instalação-travessura.

 

Tinha vislumbrado os lençóis similares que durante séculos as mulheres lavadeiras da cidade estendiam para quarar sobre a pedra que aflorava do rio. Agora estavam estendidos sobre minha memória e ficarão quarando aqui para sempre...

 

 Selma repetiu a mesma estória para a memória afetiva da cidade em final de setembro de 2009. Não estava lá para outro alumbramento. Agora vejo através da fonte da fotografia que invadiu minha tela e encantou de novo minha lembrança ainda tão viva. Acenderam mais perguntas que não carecem, como a arte, de repostas: Por que uma artista se debruça sobre o gesto e a tradição do povo com a qual tanto se identifica, para conceber uma obra que não só dialoga com os olhares espantados dos passantes, mas com toda a dura história de conquista colonial de uma cidade goiana que lhe encanta e instiga a imaginação?

 

O que quer provocar e o que pode arguir aos que passam pela ponte e sabem que verão só o rio que sempre por ali fluiu muito antes da casa poética de Cora Coralina e a caminho de outro rio e quem sabe do Atlântico?

 

Que memória o rio levara daqueles lençóis tingidos de anil para outros povoados e cidades?

 

- O que quer evocar a artista dentro de si e no outro para invadir seu imaginário e de toda uma cidade que agora se recorda de um tempo e de uma atividade que não têm mais existência útil?

 

Perguntaram ao grande equilibrista francês Philippe Petit por que, num começo de manhã de 1974, ele havia atravessado num cabo de aço as Torres Gêmeas, em Nova Yorque, a quatrocentos metros de altura. Ele, que acabara sendo preso pela ousadia, não pôde compreender a razão jornalística da pergunta. Não havia porquê para seu gesto, como não há porquê para o fazer arte. Petit, simplesmente, havia passado 48 minutos em vários vaivéns, entre uma torre e outra. Portava, durante os trajetos em que dançava ao sabor do vento apenas uma felicidade horizontal no riso, e na alma, ainda mais vertical, pelo arriscado feito.

 

Selma Parreira tinha, naquela manhã de 2008, este mesmo sorriso maroto no rosto. Sonho realizado de uma criança que fez uma transgressão de linguagem na paisagem singular do cerrado. Correu pra casa pra dizer aos amigos da traquinagem feita. Assim a vi no café da manhã daquela manhã de um junho inesquecível. Tive a felicidade de, como artista, partilhar de uma mesma vocação do fazer libertador por ela proposto e nela intensamente vivido. Um prazer lúdico que nos redime e nos impulsiona para algo ainda mais desafiante do que nos propõe a força potencial da arte dialogando com a história de uma cidade. Mas será só a arte o único meio de poder para revelar o que no inconsciente esta cidade sonha?

 

O feito de Selma cura e desvenda as sombras do passado e é próprio do gesto generoso de quem ama. E um artista pode melhor potencializá-lo, ao expandir consciências, quando porta o dom de inocência no ato. Mesmo porque havia, também nesta atitude do maduro, um quê de lembrança solidária com mulheres que durante séculos limparam a sujeira dos outros, e, ao mesmo tempo, tornaram claras as suas almas a serviço de anônimos e muitos... Mulheres que estavam ali instaladas entre a luz do sol inclemente do cerrado e a transparente água do rio que lhes refrescava o cansaço do corpo, às vezes, escravo, mas sempre negro ou moreno.

 

E me veio à mente a canção Mão da limpeza, composta por Gilberto Gil: “Mesmo depois de abolida a escravidão/Negra é a mão de quem faz a limpeza/Lavando a roupa encardida, esfregando o chão/Negra é a mão/é a mão da pureza/Negra é a vida consumida ao pé do fogão/Negra é a mão nos preparando a mesa/Lavando as manchas do mundo com água e sabão/ Negra é a mão de imaculada nobreza”.

 

Tudo isso é o que nos evocam os lençóis pendurados numa manhã luminosa, e mais, o que não foi tão luminoso na história, mas que ainda está impregnado na memória da cidade eleita para o diálogo plural da arte com sua singular herança patrimonial.

A Cidade de Goiás é ainda um belo e coeso conjunto colonial legado ao futuro em seu virtual tombamento pela Unesco. Mas é, também, um patrimônio imaterial, acima de tudo, constituído, em séculos, pela virtuosidade de sua original arte popular manifestada na religiosidade profana que, por exemplo, permeia a devoção nas festas do Divino: as mais lúdicas celebrações que são tão caras às populações tradicionais nos sertões de Goiás a Minas.

 

Mas a cidade torna, também, visível, entre cuidados e descuidos, a ventura de seu rico patrimônio material, construído com as dores de um tempo em que a história era escrita a ferro e fogo pelos aventureiros bandeirantes no ciclo da mineração, ou pelos incultos senhores agropastoris. Estes, que pouco discerniam o que era escravizar e maltratar seres humanos, ou explorar a frágil natureza do cerrado, que ainda hoje é, impiedosamente, agredido pelo agronegócio.

 

Muita água rolou debaixo da ponte do Rio Vermelho até que uma artista, investida de criativa ousadia, como uma criança feliz de rua dentro do só e de si, resolvesse tingir lençóis que fossem como pedaços de céus de anil a serem estendidos sobre o sonho “nagual” de um rio. Mas os lençóis não eram apenas manifestos utópicos de pureza e ternura para com a paisagem de uma bela e mágica cidade, que teve a primazia de liderar a geopolítica goiana durante quase três séculos. Havia um gesto de cura para com a dor do passado. Uma gesta do presente para um futuro ao sereno.

Mas se não havia porquê: era só poesia!

 

Bené Fonteles

 © 2018, Ambrosio Bandeira

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