Uma sombra translúcida

Divino Sobral

 

 

Quem quer ver a luz como é tem que retroceder à sombra.                          

 H. Magnus Enzensberger.

 

 

Desenhando um curso linear, o conjunto da obra de Selma Parreira coloca-se, já há vinte anos, entre os mais relevantes no panorama artístico contemporâneo do centro-oeste brasileiro. Essa linearidade, contudo, não implica em monotonia, mas se faz pontuando problematizações consequentes que emergem com o decorrer do tempo.

 

Numa manobra típica dos anos 80, a artista abdicou das técnicas da gravura para dedicar seus interesses à pintura. Com esse deslocamento, sintonizou-se com o discurso de recuperação da gramática pictórica. Seu trabalho, então, passou a comungar com aspectos que atravessavam a produção da “Geração 80 Brasileira”, tais como: a manipulação de códigos imagéticos vinculados a muitas genealogias e processados num banco de dados visuais que compartimenta a história da arte, as informações da cultura de massas e ainda as heranças populares; e, em contraste, o interesse pela especificidade da matriz expressionista, que oferecia a possibilidade de articulação de linguagens informais investidas de gestos largos e impulsivos, compromissados com as redescobertas de manchas e de borrões. Enfim, características que demarcaram o espaço da pintura híbrida, hedonista, retiniana e subjetivada do período.

 

Nascido sob a influência dessas questões, o curso da obra de Selma Parreira segue desenhando caminhos que levam da visibilidade imediata, iridescente, à outra mais complexa, embaçada, voltada a si mesma. A artista segue acreditando que a pintura é, exclusivamente, uma elaboração bidimensional que se estende sobre a superfície esticada do suporte sem tencionar ou invadir os limites do plano.

 

As obras de sua primeira fase possuíam valores que de certa forma as colocavam em relação com a ilustração, não só porque efetuavam o inventário de ambientes, cenas e objetos lúdicos e domésticos, assumindo-os com prazer e alegria, mas também, porque nelas figura e fundo constituíam-se da mesma substância, encorpavam-se com as mesmas pinceladas que, embora aparentemente descompromissadas, responsabilizavam-se junto com a cor pela estruturação do ritmo interno da pintura. Nestes trabalhos, tudo ocorria no primeiro plano, na superfície mais imediata, como numa impressão.

 

Na passagem dos anos 80 para os 90, a artista gradativamente empurrou as figuras que representava para as bordas das telas, chegando até a suprimi-las. Restara ainda uma tensão figural sobre o plano; uma tensão formada pela herança de estruturas formais da pintura paisagística, como a linha do horizonte, conjugada com tributos prestados aos esquemas de cálculo espacial abstrato. E é esse tipo de tensão que irá, em maior ou menor grau, manifestar-se em sua pintura posterior.

 

Durante os anos 90, as dimensões dos trabalhos foram ampliadas e a pintura ganhou outra materialidade. A cor, que anteriormente era pura, plana, brilhante e transparente, regulada por acordos entre distintas temperaturas cromáticas, perdeu a pureza e adquiriu maior densidade e gravidade – como se uma leve penumbra a encobrisse mansamente, gerando uma sombra translúcida, que, assim como no “Elogio da Sombra”, de Borges, registra sintomas de uma interioridade emocional muito intensa. O transluzimento de sua pintura passou a revelar-se através das sobreposições das camadas fluidas das tintas e da musicalidade dos tons e nuances que descortinaram sobre a superfície a ilusão de profundidade cromática.

 

As pinturas exibidas nesta mostra Velar e revelar são emblemáticas da progressão dos métodos empregados por Selma Parreira durante os últimos anos. Nelas é a cor que cria a estrutura do trabalho, ora pela tensão ao monocromatismo, ora por meio de arranjos entre delicados acordes de tons, ora pela pesquisa de contrastes sem muito atrito entre as notas. São pinturas feitas na equação dialética entre a luz e a sombra, como empreendimentos poéticos que investigam as fronteiras entre a cegueira e a visão, e onde a atmosfera é quase sempre “neblinublada”.

 

O olhar penetra em meio a essa atmosfera porque ela é conformada por elementos diáfanos. Também o gesto coaduna-se com a criação de transparências, pois, à medida que se expande e se acumula, deposita sobre a superfície cada vez menos quantidade de pigmento. O gesto da artista ocupa o espaço: aqui, torna-se gráfico, desenha organicamente uma espécie de territorialização; ali, enfatiza a passagem de uma área brilhante a outra fosca; acolá, torna-se incisivo para marcar a passagem de um material a outro.

 

A exposição também apresenta o agravamento da pesquisa de Selma Parreira, com a utilização de velhas lonas como anteparo para seus procedimentos pictóricos. As lonas vêm sendo utilizadas em trabalhos anteriores, quase sempre esticadas em chassis; mas, nos quatorze trabalhos agora exibidos, encontram-se molengas e pendentes das paredes, livres de rígidos bastidores. Na verdade, a função que elas tomam nestas obras é bem maior que a de um suporte ao pé da letra. Os trabalhos constituem-se a partir de peças de tecidos costuradas em duas partes e que se abrem como páginas de livro. Na face externa, a artista assume a qualidade de objet-trouvé das lonas rotas, surradas, rasgadas, remendadas e encardidas, repletas de belos indícios temporais. Na face interna, elabora com encáustica pinturas que a princípio ainda são planejadas, procurando um diálogo com as cicatrizes adquiridas pelas lonas em sua passagem pelo mundo. Na medida em que a série avança, as pinturas tornam-se mais expressivas, configurando manchas impactantes que se concentram ou se rarefazem escapulindo ao controle projetivo da artista, além de se tornarem,paradoxalmente, mais enigmáticas e indecifráveis à luz do dia. Com sintagmas do desenho, da gravura e da pintura, a série desenvolve-se numa narrativa destinada aos olhos, dolorosa e dramática, alusiva aos sudários e aos quadros da via-sacra.

 

Divino Sobral

Goiânia, 2001.

 © 2018, Ambrosio Bandeira

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