Sobre paisagens imensas

Marcus Lontra

 

 

Na alma que medita e sonha,

uma imensidão parece esperar as imagens da imensidão.

O espírito vê e revê objetos. A alma encontra no objeto

o ninho de uma imensidão.

                    Gaston Bachelard

 

 

Toda pintura é uma paisagem. Toda paisagem é um estado de espírito. Lembro-me dessas frases soltas que surgem em meu pensamento diante das telas de Selma Parreira, nesses espaços generosos, nessa imensidão de tinta que escorre feito um rio sobre a tela, nesse rasgo, nessa cicatriz que amarra a trama e registra o passado. Aqui, é o império da reminiscência, das vozes, dos cheiros, das lendas, das lembranças que constroem uma imagem poderosa do presente; aqui o tempo não encerra, ele é eterno e se projeta no espaço como um companheiro amigo, um gesto, um afago...

 

Quanto há de céu, quanto há de mar, no mundo de Selma. Nessa terra, nesse ar, faz de Goiás muito mais, projeta o planalto enorme e vasto que habita em todos nós, que nos envolve como um véu e nos ensina que não estamos sós. Tudo aqui é vasto, no sentido que Baudelaire compreendia o adjetivo, como “infinidade do espaço íntimo”. Nessa pintura, nessa paisagem, o espaço é o assunto, o homem e o mundo, o Ser e o Outro, a contínua relação entre o íntimo e o externo, o cheio e o vazio. A construção da linguagem que opera esse ritmo, diagrama esse espaço, harmoniza essa melodia. Nas obras de Selma, o ser humano é o limite de seu gesto, o resgate de sua memória e a projeção de seu desejo. Tudo aqui conspira, seduz.

 

Diante de tanto encanto, porque exigir do articulista o discurso legitimador da objetividade quando sabemos que a ciência é apenas o instrumento operacional, a flama azul que sustenta e alimenta. Para mim, a pintura de Selma caminha como a água cristalina que surge da nascente e toma o seu rumo, sua sina. Ela fascina a minha retina saturada de tantos conceitos, tanta teoria vazia e se impõe, rainha, com a força da beleza e da verdade. Arte é antes de tudo conquista, encanto, fascínio, e cada obra há de ser o “fragmento de um discurso amoroso”, um abismo, conforme nos ensina R. Barthes. Produzimos arte porque acreditamos que a vida há de ser mais do que a miséria do real e que o ser humano, ao refazer o mundo, transcende e supera o seu limite, amplia e ilumina a vastidão.

 

Há, nesse mergulho, muito do intangível, muito de mistério e de fantasia, mas há muito gesto, muita ação, muita matéria. Em Selma, o pensar e o fazer se complementam, dialogam na construção de seu trabalho, da mesma maneira que as instalações, a apropriação de elementos do cotidiano de sua família, do “armazém feliz”, as pinturas, os desenhos, compõem um universo de intensa carga poética que a artista elabora com a precisão de uma costureira e a sabedoria de uma cirurgiã. A condição feminina é aqui compreendida de maneira substantiva, elemento motriz da ação. Do silêncio das costureiras, das vozes cantadas das lavadeiras, do trabalho cotidiano exercido pelas mulheres por séculos de domínio masculino, a artista recolhe os instrumentos de sua ação artística e com eles elabora seu repertório plástico, sua poesia. Elas nos faz entender que somos os herdeiros dessas vozes, dessa rotina, desses gestos cotidianos, desses antigos sorrisos, dessa melancolia.

 

Nesse recanto poético criado por Selma Parreira, a linha, o elemento gráfico, é o instrumento de união, de aproximação entre as formas e de integração com o espaço. Aqui, tudo se rege pelo domínio da composição, pela regência do equilíbrio e da composição. Para a artista a arte é um instrumento da harmonia, o local onde a clareza do método construtivo e a carga expressiva que integram e se complementam. Por isso toda a produção de Selma Parreira é uma ponte a unir espaços, a integrar territórios, a aproximar e integrar a vida e a arte. Nas frestas das técnicas, unindo instalações, objetos, pinturas e desenhos, a artista cria um universo particular determinado pela simplicidade e pelo requinte visual. Diante deles, o espectador é instado a descobrir um mundo de encantos e belezas, ou como nos ensina R. M. Rilke “O mundo é grande, mas em nós ele é profundo como o mar”.

 

Marcus de Lontra Costa

Rio de Janeiro, junho de 2004

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