Um toque de mãos e o anel anil 

Rubens Pileggi

"Não há nada maior ou menor do que um toque". Era o que dizia o grande poeta Walt Whitman, que atravessou boa parte do século dezenove caminhando entre montanhas,  observando as folhas serem levadas pelo vento e escrevendo. Sua forma de fazer versos livres falava do amor às coisas simples da vida. Amor que deu forma a seus poemas repletos de situações prosaicas, mas de alta voltagem poética, pois era dirigido aos que viviam vidas comuns, como os camponeses. Buscava uma linguagem para que eles entendessem sua poesia. Por isso, até hoje, quando lemos sua poesia, ela parece continuar nos tocando.

A série de trabalhos que a artista Selma Parreira vem produzindo desde 2000, a partir do encontro com as pedras de anil - que sobraram de herança do antigo armazém do avô, em Anápolis - e a conexão com as lavadeiras do Rio Vermelho, na Cidade de Goiás, remetem-nos, imediatamente, para os poemas do poeta americano Walt Whitman, porque há nelas alta voltagem de amor, generosidade, simplicidade e toques. Toques que fazem as mãos das lavadeiras sobre as roupas sujas. Toques que sua arte produz sobre nós, admirados e sensibilizados pelas narrativas que se desdobram através do "anel de anil" colocado nas mãos de cada uma das 09 mulheres que aceitaram participar da obra A dor e os Segredos.

Construídos de prata e pedra de anil, a própria materialidade desses anéis evoca dualidades conflitantes, pois enquanto a prata é um elemento durável e padrão, remetendo às joias nas vitrines de lojas, a pedra de anil é obsoleta e frágil demais para a função que cumpre. Em compensação, ela dá ao anel seu aspecto mais delicado e belo, devido ao cuidado que é preciso ter para lapidar material tão poroso e à cor que a anilina dá à pedra de lavar roupas. Anilina que remete a outros tempos, que traz a memória de algum lugar que a maioria de nós não presenciamos, mas, estranha e maravilhosamente, nos reconhecemos como participantes destes acontecimentos. Desse modo, nos sentimos, então, convocados a nos posicionar e criar significados para a imagem que se coloca diante de nosso olhar. Complementando, a cada imagem, a obra que nos convoca como testemunhas. Assim, aquilo que é processado devolve à memória o que estava condenado ao apagamento pelas contas oficiais, pelas normas institucionais, pela contabilidade formal. Ao mostrar suas histórias, revelando a dor e os segredos dessas lavadeiras do Rio Vermelho, somos impelidos a entender essas mulheres como parte constituinte de uma cidade que se formou. A refletir sobre a produção real e simbólica de um mundo que viveram, pois elas são - como o anil incrustado no anel - frágeis e expostas ao esquecimento. Caso o anel se afunde na água, sobra seu suporte, a prata, mas sua razão de ser, a beleza, se dilui até o desaparecimento. Assim, o trabalho com a memória, na obra de Selma, se torna um ato político de resistência ao esquecimento de uma produção que um dia foi parte expressiva do sistema econômico da cidade. E que, paulatinamente, vem sendo levado pelas águas do rio, condenado ao silêncio que o barulho do motor impõe ao passado..

Alguém disse que a história não está estagnada, mas que se reatualiza à medida que criamos ferramentas conceituais para se apropriar das questões que os acontecimentos nos mostram. Neste sentido, ao ficcionalizar, com fotos, as mãos das lavadeiras, colocando anéis em seus dedos, Selma não pretende solucionar nenhum problema através de uma pacificação das tensões. Ou seja, colocar um anel bonito em uma mão marcada de sofrimentos como sinal de apaziguamento, enfeitando ou encobrindo uma verdade, não faz sentido em sua arte. A ficção, aqui, está à serviço da criação de símbolos, tal como nos propõe Lacan, em uma passagem do livro 7, de O Seminário, que trata da ética da psicanálise (2008: 234) e, também, o filósofo Jacques Rancière que, em A Partilha do Sensível coloca que  "a política e a arte, tanto quanto os saberes, constroem 'ficções', isto é, rearranjos materiais dos signos e das imagens, das relações entre o que se vê e o que se diz, entre o que se faz e o que se pode fazer" (2005: 59). Falando do anônimo, do comum e do 'qualquer um' como protagonista a ser pensado na "cena pública", Rancière vai ao ponto exato da questão que aqui se coloca, ao afirmar o que é preciso:

“Passar dos grandes acontecimentos e personagens à vida dos anônimos, identificar os sintomas de uma época, sociedade ou civilização nos detalhes ínfimos da vida ordinária, explicar as superfícies pelas camadas subterrâneas e reconstituir mundos a partir de seus vestígios, é um programa literário antes de ser científico”. (2012: 49)

É isso, portanto, o que esta série de trabalhos de Selma Parreira evoca, pois não se desapega dos "detalhes ínfimos da vida ordinária". Tal evocação, em Selma,  traz à tona o mito de uma deusa nórdica que teve as mãos decepadas, como apontam as próprias pesquisas iniciais da artista-pesquisadora. Mas tais pesquisas se desdobram do mito para mostrar, na realidade, uma luta por igualdade. E, assim, busca do fundo desse rio vertiginoso, a humanidade dessas mulheres anônimas que gastaram suas vidas lavando malas e mais malas de roupas para as famílias de posse da cidade, antes que se chegasse o conforto industrial.

São esses os encadeamentos que a instalação A Dor e Seus Segredos apresentam. 20 fotografias e 12 horas de entrevistas transformadas em uma peça de áudio. Não há tristeza, nem lamentações, nem arrependimentos. Mas 'causos' que se sucedem uns aos outros, apresentados como um fluxo de águas de um rio que não para  de correr. Lá, lavam-se as roupas como se lavam as almas, quer dizer, limpando aos poucos, esfregando com sabugo de milho no tecido sujo o sabão feito com banha de porco e soda cáustica no tacho fervente, depois enxaguando, torcendo, batendo e tirando toda espuma. Às vezes, usando pedra de anil nos lençóis. Até a roupa ficar limpa, cheirosa . O olhar lírico de Selma - da mesma forma que os poetas Whitman e Coralina - se volta para os fatos da vida, ressaltando o cotidiano dessas mulheres. O anel que enfeita os dedos mostra a vaidade feminina, simbolizando as vidas que estavam submersas no fundo do rio, garimpadas pela artista em cada voz que se expressa, em cada mão que se deixa ser fotografada.

Finalizando - sem a pretensão de esgotar o assunto - duas comparações com obras bastante diferenciadas em termos de técnicas e modos de apropriação do assunto podem ser trazidas à tona. Comparações, digo, no sentido dessas "dores e segredos" dos personagens retratados. A primeira é Bastidores (1997), de Rosana Paulino. São panos presos a uma armação - bastidor - de madeira, que serve para bordar roupas. Só que o pano esticado no bastidor está impresso com a figura de mulheres negras em sua superfície e, sobre elas, a artista costura uma trama de linha preta sobre seus olhos, bocas e gargantas. Se, em A Dor e Seus Segredos as mulheres sofrem o desgaste do tempo pelo sofrimento do trabalho, mas são redimidas pela vaidade de usar um anel de anil, em Paulino, o que ressalta são as mulheres negras que são (ou foram) caladas, cegadas, violentadas e obrigadas a bordar tecidos para enfeite e deleite de olhos alheios. A segunda obra é o álbum de figurinhas Nowhereman (2011), de minha autoria, cujas páginas, em p&b, são ilustradas com imóveis vazios, para alugar e vender, do centro da cidade do Rio de Janeiro. Preenche-se as páginas do álbum com cromos coloridos de moradores de rua encontrados na mesma região onde estavam disponíveis os imóveis. Ao colar uma figurinha de morador de rua nos espaços numerados das páginas, de alguma forma, o 'espectador' torna-se um cúmplice do personagem fotografado, colocando sua imagem, sem lugar, em um lugar estabelecido pelo número estampado no verso do cromo.

É essa função da testemunha que se vê na situação de se posicionar que o trabalho de Selma desafia o espectador. Pois em um mundo onde os desejos são capturados cada vez mais, não há neutralidade possível. Sendo assim, parte-se do simples, do anônimo e do ordinário para se chegar ao extraordinário que a arte pode, ainda que por um breve momento, nos proporcionar. Não é só um deslocamento, uma metáfora ou trocadilho. É um toque, como acentua a perfumada lírica do poeta de Folhas de Relva.

 

Rubens Pileggi Sá - artista e professor de arte na Faculdade de Artes Visuais da UFG

 

 

Referências

WHITMAN, Walt. Folhas de Relva. São Paulo: Iluminuras, 2005.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 7: ética da psicanálise (1959-1960). Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Ed. 34, 2009.

 © 2018, Ambrosio Bandeira

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